Whisky com gelo

Suspiros e um whisky com gelo. Não se movia. Limitava-se a apoiar a cabeça numa das mãos e olhar em redor com um ar expectante. (O olhar era um engano - não esperava nada, nem ninguém, mas agradava-lhe aquela expressão). Vinha sentar-se à esplanada todos os dias. Bebia sempre do mesmo whisky e exactamente com o mesmo número de cubos de gelo. Olhava em redor, com o mesmo ar expectante, e não esperava nada. Não sabia muito bem porque o fazia mas, à falta de melhor e pela força do hábito, acabava sempre os dias na mesma cadeira da mesma esplanada, com o mesmo olhar vazio (e expectante - sempre expectante, mas nunca esperando nada).
Devorava livros nos tempos livres. Dizia, ou diria, se por algum acaso encontrasse alguém disposto a ouvir-lhe as confissões, que os livros eram a coisa mais importante da sua vida - e, de facto, eram. Porque não tinha mais nada onde gastar o seu tempo. Achava, porque nunca encontrava ninguém disposto a ouvir-lhe as confissões, que o ser humano é um ser demasiado solitário, e que não devia ser assim, devíamos unir-nos, devíamos juntar-nos e conversar. Toda a gente precisa de uma boa conversa. O que interessava se não conhecêssemos a pessoa? Bastava apresentarmo-nos, olá, muito boa tarde, o meu nome é José, ou Teresa, ou seja o que for, e conversar. Muito. Em esplanadas. Achava que até era uma pessoa decente e, se porventura encontrasse alguém que lhe dispensasse cinco minutos - apenas cinco minutinhos, era tudo o que pedia! - de conversa, até conseguiria mostrar-lhe quão decente conseguia ser, quando se esforçava por isso (quando se sentava à esplanada e olhava em redor com um ar expectante não era uma dessas alturas. Sentava-se à esplanada para sentir o vento bater-lhe na cara e se recordar de episódios de infância e de vidas passadas (por vezes, julgava já ter vivido três vezes, tantos eram os anos que tinha em cima - tinha até medo de os contar)). Por vezes lembrava-se de um qualquer momento mais feliz e sentia os marejados de lágrimas. Nessas alturas, limpava-os com o lenço, como-quem-não-quer-a-coisa, como-quem-se-está-simplesmente-a-assoar, como-uma-qualquer-pessoa-de-olhar-espectante-faria. Suspiros e outro gole de whisky. O vento batia-lhe na cara e atirava-lhe os cabelos longos contra os olhos.

Ana Martins

Este texto foi oferecido á Tasca por uma das suas mais ilustres clientes.
Vou emoldurar e pendurar na parede.

2 comentários:

Ana disse...

Nunca ninguém me tinha chamado ilustre :')

Nuno Moniz disse...

O Chico da Tasca trata bem as suas clientes.